Segundo o estudo, realizado entre 2000
e 2007, 44% dos pesquisados apresentaram
índices elevados de colesterol.
"Eu exagerava nos alimentos ricos
em gordura quando tinha 11 anos e meu colesterol
estava em 269 mg/dL. Então iniciei
o tratamento com dieta e esportes. Hoje
meu colesterol é 160 mg/dL",
diz a estudante Jéssica Rossi Ruggeri,
17, que ainda precisa diminuir seu índice.
A pesquisadora responsável, Eliana
Cotta de Faria, do Departamento de Patologia
Clínica da Faculdade de Ciências
Médicas da Unicamp, atribui os altos
índices a fatores de risco como sedentarismo,
má alimentação, obesidade
e diabetes, além da hereditariedade.
De acordo com a pesquisa, 44% das crianças
entre dois e nove anos apresentaram valores
alterados do colesterol total, 36%, do LDL
(colesterol ruim) e 56%, dos triglicérides.
Os altos índices de triglicérides
estão associados a um risco maior
de doença coronariana.
O resultado foi muito similar no grupo
dos adolescentes e jovens de dez a 19 anos.
"Não é de se estranhar
que a população hospitalar
tivesse índices um pouco mais altos.
Mas não imaginávamos que estes
índices seriam tão altos",
diz Faria. Não há dados brasileiros
sobre a taxa de colesterol entre crianças
e adolescentes, e, segundo Ieda Jatene,
presidente do departamento de cardiologia
pediátrica da SBC (Sociedade Brasileira
de Cardiologia) não é possível
extrapolar os números encontrados
na Unicamp para o resto do país.
Gordura trans
Para Roseli Sarni, pediatra e presidente
do Departamento de Nutrologia da Sociedade
Brasileira de Pediatria, uma das explicações
para os níveis elevados de colesterol,
além de maus hábitos alimentares
em geral, é o mau entendimento dos
rótulos de produtos com gordura trans.
"Quando a mãe lê zero,
ela entende que o alimento é livre
desse tipo de gordura, o que não
é verdade", diz. A legislação
admite que o fabricante diga que seu produto
tem "0% de gordura trans" quando
tem até 0,2 g do elemento por porção.
Com isso, a criança é liberada
a consumir alimentos com esse tipo de gordura.
A prevenção, segundo Eliana
Faria, começa com o estilo de vida
da família, que é transposto
para a realidade da criança. "Uma
criança não pode decidir comer
mais legumes se os pais não compram
legumes", diz.
Para diminuir os níveis de colesterol
no sangue, devem ser priorizados dieta balanceada
e exercícios físicos. É
preciso estimular o consumo de frutas, verduras,
legumes e peixes marinhos, reduzir o consumo
de óleos, açúcares
e gorduras e preferir alimentos integrais.
As mudanças, no entanto, não
devem ser drásticas, pois a criança
pode ficar ainda mais resistente em mudar
sua alimentação. "Começamos
com uma mudança quantitativa, para
depois fazer a qualitativa", diz Sarni.
Isto é: o recomendado é reduzir
alimentos que aumentam o colesterol ruim,
para, gradativamente, substituí-los
por opções mais saudáveis.
Medicamentos
Em julho, a Academia Americana de Pediatria
tomou uma decisão radical em relação
às crianças com colesterol
alto: orientou que os pequenos acima de
oito anos sejam medicados com drogas (estatinas)
para prevenir doenças cardíacas.
No Brasil, os pediatras indicam medicamentos
a partir dos dez anos, mas apenas para crianças
com uma doença genética chamada
hipercolesterolemia familiar, que eleva
os níveis de colesterol, independentemente
do estilo de vida. Para as demais, eles
defendem uma dieta equilibrada associada
a exercícios físicos. A cautela
tem justificativa. Não há
estudos a longo prazo sobre o uso das estatinas
em crianças ou que mostrem que, usando
a medicação precocemente,
elas estarão mais protegidas do que
aquelas que iniciaram a terapia na vida
adulta.
Fonte: Folha