riqueza. "Eu não tinha para
onde ir", ela declarou a seu advogado.
"Queria que a polícia cuidasse
de mim." Abrigada há algumas
semanas em um centro social para sem-tetos,
ela não tinha família nem
amigos.
Por mais trágico que pareça,
o caso ilustra a importância do problema
da criminalidade de pessoas idosas no Japão.
Segundo a edição 2008 do "Livro
Branco sobre a Criminalidade", lançado
no início de novembro, o número
de infrações ao código
penal registrou em 2007 uma queda de 6,5%,
para 2,7 milhões. Em redução
pelo quinto ano consecutivo, ele volta ao
seu nível do final dos anos 1990.
O recuo envolve o conjunto das faixas etárias
da população, com exceção
dos maiores de 65 anos: 48.605 deles foram
detidos, 4% a mais que no ano anterior,
um recorde desde que o ministério
começou a compilar esses dados, em
1986. O número de idosos reconhecidos
culpados de crimes de delitos se multiplicou
por cinco em 20 anos. Ao mesmo tempo, essa
população "apenas"
duplicou, passando de 13,7 milhões
para 27,5 milhões.
A progressão rápida e regular
dessas estatísticas levou o Ministério
da Justiça a lhe dedicar um estudo,
confiado ao Instituto de Pesquisa e de Formação.
"Os maiores de 65 anos são presos
tanto por furtos quanto por agressões
ou homicídios", constatou Toru
Suzuki, que dirigiu o estudo. Os pesquisadores
interrogaram 368 pessoas condenadas. "A
principal causa dessa criminalidade é
a falta de recursos", explica Suzuki.
"Eu queria economizar meu dinheiro",
"Eu estava com fome" são
explicações comuns dadas por
idosos presos por furto.
Cerca de 45% dos que recebem o salário
mínimo japonês, ou seja, 498
mil famílias, são constituídas
de pessoas idosas. A perspectiva de rendas
mais limitadas, o aumento das desigualdades
e a explosão do número de
aposentados com a chegada da geração
baby boom à idade de encerrar a atividade
econômica já são vistas
como um risco de aumento dos crimes e delitos.
Outro fenômeno em causa é
a solidão, às vezes tão
intensa que a polícia registrou casos
de mulheres idosas que cometem furtos em
mercearias na esperança de ser apanhadas.
Elas sabem que poderão passar algumas
horas falando com alguém. Com freqüência
não são processadas. Quando
os dois fatores se conjugam, levam a situações
extremas. Homens idosos que perderam a esposa
e recebem rendas magras, caem no crime para
ser presos. Sabem que então receberão
três refeições por dia
e o pessoal cuidará deles.
Alguns não hesitam em recorrer à
reincidência para voltar para trás
das grades. Como um homem de 67 anos, sem
família nem conhecidos, que furta
toda vez que é libertado. "Eu
não sei como fazer para obter ajuda
do governo. Mas sei roubar. Então
eu roubo". Outro de 76 anos, em liberdade
condicional, usou todo o dinheiro que tinha
ganhado na prisão para consumir saquê.
Sem dinheiro, teve de dormir na rua e começou
a roubar para se alimentar. Recapturado,
voltou à prisão. "Aqui
podemos dormir, comer e trabalhar",
ele declarou aos autores do estudo.
O Ministério da Justiça pôde
observar que de 50 casos de homicídios
estudados pelos pesquisadores a maioria
visava os cônjuges. Atos desesperados
cometidos no paroxismo de um esgotamento
acumulado durante anos. Uma mulher de 69
anos que nunca havia tido problemas tentou
estrangular o marido, vítima de senilidade
há vários anos.
Para Tomomi Fujiwara, autor de "Boso
Rojin" [Os velhos coléricos],
"antigamente os laços de sangue
e comunitários serviam para limitar
os desvios de comportamento. Cometer um
crime significava suicidar-se socialmente.
Com a crescente solidão dos idosos
esse não é mais o caso".
Por exemplo, "o estigma dos ladrões
quase desapareceu".
Além dos problemas sociais, a multiplicação
de casos que envolvem essa população
cria dificuldades nas prisões. De
menos de 10 mil em 2000, o número
de detidos com mais de 65 anos hoje se aproxima
de 30 mil. A progressão levou o governo
a liberar 8,3 bilhões de ienes (€
67,8 milhões) para construir três
centros que poderão receber mil prisioneiros
idosos. De modo mais geral, a publicação
dos números do ministério
constitui um indício da ausência
quase total de organismos para cuidar dos
idosos. Algumas associações,
como a Sanyukai, essencialmente envolvidas
na ajuda aos sem-tetos, às vezes
ampliam seu campo de ação
às pessoas idosas e solitárias.
Há iniciativas, principalmente em
Hokkaido, onde pequenas residências
com cozinhas, salas de estar e banheiros
comuns se esforçam para receber idosos
solitários, ao mesmo tempo que estudantes
ou assalariados de baixa renda, a fim de
recriar um elo comunitário. Mas isso
é limitado e insuficiente. Os serviços
a domicílio, quando existem, são
muito caros, assim como as casas de retiro,
quase inacessíveis para os titulares
de recursos modestos.
Por enquanto, nada foi decidido para conter
o aumento da criminalidade dos idosos. O
Ministério da Justiça reconhece:
"Chegamos ao ponto em que se tornou
necessária uma revisão do
conjunto das medidas anticriminalidade".
Para combater a reincidência, o Ministério
da Saúde, do Trabalho e dos Assuntos
Sociais pediu que uma verba seja prevista
no orçamento de 2009 para a criação
de centros de acolhimento de detidos em
final de pena e de saúde frágil.
Além disso, "toda a sociedade
deve se mobilizar e agir nos campos judiciário,
da ajuda social e do emprego", estimou
em 9 de novembro em um editorial o jornal
conservador "Yomiuri". "Para
impedir que os idosos cometam crimes, é
vital não os isolar da sociedade".
De 22,1% da população em
2008, a proporção de japoneses
com mais de 65 anos deverá passar
para 40% em 2050.
Fonte: Le Monde