.científica Durante milhares de
anos viver foi sinônimo de respirar,
e uma forma de certificar a morte era aproximar
um espelho da boca do doente e observar
se ficava embaçado ou não.
Mas desde que os avanços na medicina
permitiram prolongar de forma artificial
o funcionamento de órgãos
vitais como o coração ou o
pulmão, a morte tornou-se mais complexa:
morrer já não é deixar
de respirar, ou que o coração
pare de bater, mas perder a capacidade de
fazê-lo de forma autônoma. Uma
pessoa pode continuar respirando e mantendo
as funções básicas
de seu corpo, e no entanto estar morta:
é um cadáver latente.
A morte clínica está plenamente
aceita, tanto do ponto de vista legal como
científico, e constitui a base do
extraordinário desenvolvimento dos
transplantes, pois permite manter durante
algum tempo os órgãos de uma
pessoa já falecida para extraí-los
em condições de serem implantados
em outra.
Até hoje, a maior parte das doações
procedia de pacientes com morte cerebral,
que é declarada quando se acredita
na perda irreversível das funções
cerebrais. Mas nos últimos tempos
os programas de transplantes acrescentaram
a possibilidade de obter órgãos
de pacientes em morte cardíaca ou
circulatória, que ocorre quando o
coração entra em assistolia
irreversível e é incapaz de
bombear sangue por seus próprios
meios.
Esse tipo de morte é a que foi agora
abalada pela polêmica: em 14 de agosto
passado, a revista "The New England
Journal of Medicine" publicou um artigo
da equipe de transplantes do Hospital Infantil
de Denver, chefiada pelo dr. Mark Boucek,
no qual informava sobre o êxito de
três transplantes de coração
que foram extraídos de bebês
com poucos dias de vida, depois de declarada
sua morte por parada cardíaca irreversível.
Até hoje, nas doações
procedentes de pacientes em morte cardiocirculatória,
eram extraídos diferentes órgãos
(principalmente rins, fígado, pulmão),
mas nunca o coração. Entendia-se
que um coração que falhou
em uma pessoa dificilmente poderá
funcionar em outra. Em Denver, porém,
o conseguiram, dando lugar à situação
no mínimo paradoxal de que, depois
de ter declarado a morte do doador por falha
irreversível do coração,
esse mesmo coração agora bate
e vive em outra criança.
Os três bebês estavam destinados
a uma morte certeira, e a extração
de seus corações foi feita
com pleno consentimento dos pais e do comitê
de bioética do hospital, mas a publicação
do trabalho, qualificado de experimental,
abriu uma intensa discussão sobre
que condições devem ocorrer
para se poder declarar a morte cardíaca
ou circulatória. Porque para extrair
o coração em condições
de ser transplantado a equipe de Denver
teve de reduzir ao mínimo - 75 segundos
- o tempo de assistolia necessário
para declarar irreversível a falência
cardíaca, o que contraria os protocolos
até agora em vigor, que recomendam
esperar cinco minutos, seja a pessoa falecida
doadora de órgãos ou não.
Consciente da repercussão desse
trabalho, a própria revista pediu
opiniões a eminentes especialistas.
"Há acordo substancial sobre
quando as funções cerebrais
se perdem de forma irreversível",
afirma James L. Bernat, professor de neurologia
da Faculdade de Medicina de Dartmouth (EUA).
"Mas no caso da morte cardíaca
até agora se considerava que podiam
se obter todo tipo de órgão,
exceto o coração. Supunha-se
que se alguém tinha sido declarado
morto por falência cardíaca
a função cardíaca não
poderia ser restaurada em outra pessoa."
Na mesma linha, Robert M. Veatch, professor
de ética médica do Instituto
Kennedy da Universidade de Georgetown (EUA),
considera que "se o coração
é reiniciado, significa que a pessoa
da qual procede não poderia ser declarada
morta de acordo com o critério de
morte cardíaca. Extrair órgãos
de pacientes cujo coração
não só pode ser reiniciado
como até reiniciado em outro corpo
significa extinguir uma vida com a extração".
Veatch é taxativo: "Pelos critérios
legais atuais, não é possível
obter corações para o transplante
de um doador que tenha sido declarado morto
com base em uma parada cardíaca irreversível".
Por que a equipe de Denver decidiu dar
esse passo polêmico? "A mortalidade
na lista de espera infantil é de
uma ordem de magnitude muito superior à
dos adultos; os doadores por causas cardiocirculatórias
oferecem uma oportunidade de reduzir essa
mortalidade", argumenta Boucek.
A falta de doadores e o número crescente
de pacientes em lista de espera levaram
as equipes médicas de todo o mundo
a otimizar a possibilidade de obter órgãos,
e por isso nos últimos anos foram
implantados em vários países
programas de doação em morte
cardíaca, chamada de doação
em assistolia. E também na Espanha,
onde o êxito das medidas para reduzir
os acidentes de tráfego fez diminuir
o número de possíveis doadores.
Apesar de ostentar a invejável situação
de ser o país com os mais altos índices
de doações - continuam aumentando
3% ao ano -, os 1.550 doadores que houve
em 2007 permitiram realizar cerca de 3.500
transplantes, mas esses números estão
longe de cobrir as necessidades. Há
mais de 5 mil pacientes na lista de espera
e entre 8% e 10% deles morrem enquanto aguardam
um doador compatível.
"A doação em assistolia
ou de coração parado é
uma das vias que temos para aumentar as
doações. Hoje temos vários
programas ligados a grandes hospitais como
o 12 de Outubro ou o Clínico de Barcelona,
e nossa intenção é
habilitar uma equipe em todas as cidades
de mais de 500 mil habitantes. Mas aplicamos
protocolos tão rigorosos quanto os
da morte cerebral, e é claro que
não extraímos corações,
mas outros órgãos", explica
Rafael Matesanz, coordenador nacional de
transplantes.
Os programas de doação em
assistolia se aplicam a casos de morte súbita
ou infarto agudo do miocárdio, e
seu sucesso depende da rapidez de atuação
da equipe médica de reanimação.
Roser Deulofeu, responsável pelo
Programa de Transplantes da Catalunha, explica
como funciona: a equipe de reanimação
que atende o paciente deve aplicar manobras
de ressuscitação durante pelo
menos 30 minutos. Se nesse tempo não
houver uma resposta, entende-se que o paciente
é irrecuperável. Aplica-se
então o protocolo de possível
doador de órgãos, que inclui
realizar manobras e técnicas de cardiocompressão
destinadas a prolongar o batimento cardíaco
o máximo possível, até
poder chegar ao hospital.
Uma vez lá, são retirados
do paciente todos os suportes artificiais
de estimulação cardíaca.
Espera-se cinco minutos. Transcorrido esse
tempo, se o coração não
reagir espontaneamente, declara-se a morte.
O coração já está
parado, mas para evitar que os órgãos
se deteriorem conecta-se o falecido a uma
máquina de circulação
extracorpórea, que mantém
a irrigação sanguínea
o tempo necessário para tramitar
a autorização judicial e localizar
a família. Se esta concordar em doar
os órgãos, eles são
extraídos, e se não também
se retira a circulação extracorpórea.
"Em caso algum extraímos o
coração", explica Matesanz.
"O que a equipe de Denver fez vai além
do admissível. Essas crianças
não estavam mortas, ou pelo menos
é um conceito de morte muito discutível".
"A equipe de Denver levou o conceito
de morte cardíaca a extremos inaceitáveis",
corrobora Roser Deulofeu.
Como já ocorreu com a morte cerebral,
realizaram-se várias conferências
científicas de consenso para estabelecer
em que momento se pode declarar a morte
cardíaca. Quando se pode dizer que
o coração perdeu totalmente
a função cardíaca?
Quando se encontra em situação
de assistolia irreversível, isto
é, quando é incapaz de bombear
o sangue, e isso se verifica pela ausência
completa de atividade elétrica no
miocárdio.
Como a ausência de circulação
sanguínea deteriora rapidamente os
órgãos que serão extraídos,
depois se discutiu outra questão:
quanto tempo um paciente deve permanecer
em parada assistólica para se poder
certificar que morreu? "Como não
se podem extrair os órgãos
antes da declaração de morte,
os cirurgiões se esforçam
para reduzir o tempo entre a assistolia
e a declaração de morte",
explica Robert M. Veatch. Mas quanto é
razoável?
Em 1993 foi publicado o protocolo de Pittsburgh
para transplante em adultos. Estabelecia
que se devia assegurar a assistolia de pelo
menos 120 segundos, amparando-se em que
depois desse período nunca havia
ocorrido uma auto-ressurreição.
No entanto, como fisiologicamente a função
cardíaca pode ser restaurada no próprio
paciente mediante estímulos externos,
afinal se teve o consenso de esperar cinco
minutos a partir do momento em que se induz
a assistolia. Esse é o tempo consensual
para ter certeza de que o ritmo cardíaco
necessário para gerar pulso não
se retoma espontaneamente. "Entende-se
que não se pode dizer que a parada
cardíaca é irreversível
se depois pode ser reinstaurada", mesmo
que seja por meios mecânicos, afirma
James Bernat.
E estávamos nesse ponto, quando
a equipe de Denver decidiu reduzir ao mínimo
imprescindível esse tempo para poder
obter também corações.
O programa gerou mais rejeição
que aceitação, mas também
teve seus defensores. Robert D. Troug, professor
de ética médica e anestesia
da Universidade de Harvard, e Franklin G.
Miller, membro do comitê de bioética
dos Institutos Nacionais de Saúde
dos EUA, afirmam que o relevante, do ponto
de vista ético, não é
o tempo necessário para poder declarar
a morte, uma questão que foi submetida
em sua opinião a "desnecessárias
e insuportáveis revisões",
mas se existe ou não consentimento
informado do paciente ou seus representantes
para doar os órgãos. Porque,
nos casos de pessoas que não estão
em morte cerebral mas se encontram "em
situação neurológica
devastadora" e morrerão de forma
inevitável quando forem retirados
os suportes vitais, se constar o desejo
explícito de doar seus órgãos
o principal imperativo ético deveria
ser fazer o possível para que esses
órgãos sejam transplantados.
A própria revista mantém
uma posição bastante eclética.
Em seu editorial, "The New England
Journal of Medicine" declara que espera
que o caso possa estimular um debate sobre
as doações infantis para o
transplante e conduzir a um consenso que
não só leve em conta as altas
exigências éticas que essa
matéria requer como também
a grande escassez de doadores de órgãos.
A revista argumenta que o transplante cardíaco
é a única opção
para as crianças que nascem com uma
doença congênita ou uma cardiomiopatia
avançada. Lembra que nos EUA são
praticados por anos cerca de 400 transplantes
de coração infantis, uma centena
deles em crianças de menos de 1 ano,
e que o índice de sobrevivência
é de mais de 15 anos na metade das
crianças transplantadas e mais de
5 anos em 80%.
No entanto, cerca de 50 crianças
morrem por ano na lista de espera porque
é muito difícil encontrar
doadores, especialmente para os menores
de 1 ano. De fato, as crianças na
lista de espera têm dez vezes mais
possibilidades de morrer que os adultos.
A revista considera que "o desenvolvimento
de critérios normativos aceitáveis
para a doação pediátrica
é um objetivo vital". E conclui:
"No relatório de Boucek uma
conclusão é clara: o resultado
desse protocolo experimental é que
três crianças estão
vivas hoje. Caso não tivesse realizado
esses procedimentos, as seis estariam mortas".
Isso é verdade. Mas também,
segundo Rafael Matesanz, que o êxito
das políticas de doação
se baseiam na confiança, não
só confiança em que não
haverá comércio nem preço
nas doações, mas também
que a decisão de declarar uma morte,
seja cerebral ou cardíaca, não
será condicionada nem contaminada
por considerações alheias
ao interesse do doador. E a confiança
é uma flor muito delicada.
Fonte: El País