Quando Azad tinha 16 anos, seus pais o
informaram que era prometido a uma prima
do Leste de Anatólia, que também
tinha 16 anos. Quando ele se recusou, sua
mãe ameaçou cometer suicídio.
"Você vai me encontrar pendurada
com uma corda no porão", disse
ela. Aos 17 anos, Azad e a prima se casaram
em uma cerimônia civil durante as
férias da família na Turquia.
Quando ele fez 18 anos, sua mulher veio
para a Alemanha, e foram enviados convites
de casamento ornados. A cerimônia
de casamento ocorreu em um hotel mediano
no Sudeste da Alemanha. "Foi puro terror",
diz Azad.
Na Alemanha, são comuns as histórias
de meninas turcas forçadas a se casar
e maltratadas. Autores como Necla Kelek
e Serap Çileli descreveram-nas com
detalhes. Entretanto, poucos sabem que muitos
rapazes muçulmanos também
são forçados a se casar contra
sua vontade e sujeitos à violência
nas mãos de membros da família.
Quase não existem programas de assistência
organizados para esses jovens, e muitos
têm vergonha demais para falar sobre
seus destinos. Azad, cheio de temor e vergonha,
não quis usar seu nome verdadeiro
para esta matéria.
A escritora Çileli, ela mesma vítima
de um casamento forçado, atende meninas
turcas e mulheres desde os anos 90. Ela
e suas colegas da Associação
Peri para Direitos Humanos e Integração
(www.peri-ev.de) fornecem ajuda e apoio
para pessoas que estão tentando escapar
de casamentos forçados. Muitas são
mulheres desesperadas, mas ocasionalmente
aparecem homens em busca de ajuda. Até
agora, o mais jovem tinha 16 anos, e o mais
velho, 48. Azad foi um deles.
"Coesão social"
O psicólogo Kazim Erdogan estabeleceu
um dos primeiros serviços de atendimento
para homens turcos no bairro de Neukölln,
em Berlim. Ele conhece bem o problema. "Também
há jovens que são pressionados,
chantageados ou surrados por suas famílias",
diz ele.
Algumas vítimas são nascidas
na Turquia e criadas na Alemanha e se meteram
com pessoas erradas, envolveram-se com drogas,
roubos e a gangues. As famílias,
ansiosas para retornarem seus filhos ao
caminho reto, encontram para eles mulheres
puras de Anatólia. Ninguém,
contudo, pergunta a opinião do noivo
ou da noiva.
Algumas vezes, é o noivo que é
importado, como um marido honrado para uma
filha. O noivo importado quase não
tem poder para se opor à união,
especialmente com sua família na
Turquia apostando todas suas esperanças
em seu futuro.
O caso de Azad representa outra variação:
ele mal tinha três meses de idade
quando os parentes na Turquia enviaram as
primeiras fotografias de sua prima para
seus pais na Alemanha. As palavras "para
meu noivo" estavam escritas atrás
das fotos. "Sempre achei que fosse
uma piada", disse Azad, que é
mecânico.
Cem, que tem 20 poucos anos, teve experiência
similar, mas, como tinha uma namorada alemã,
ele se recusou a se casar com a prima. Çileli
conta sua história.
Sob o pretexto de sair de férias,
os pais de Cem levaram o filho para a costa
do mar Negro na Turquia, onde eles tiraram
seu passaporte e o pressionaram até
ele assinar o contrato de casamento. Quando
Cem, recém-casado, voltou para a
Alemanha, sua namorada Julia tentou convencê-lo
a fugir. Mas ele não conseguiu romper
com os pais. No final, ele ficou com a mulher
e a família.
Um estudo conduzido em Berlim revelou que
uma em cada cinco mulheres turcas, em uma
amostra de 300, casou-se com um parente.
"Esse tipo de casamento garante uma
família fechada", diz Çileli.
Azad também foi pressionado pelo
pai, que dizia: "Filho, precisamos
ficar fortes unidos". Casar com uma
prima significa fortalecer a família.
De acordo com um ditado turco: "Iogurte
feito em casa é mais digerível
que o leite azedo de outra pessoa".
"Muitos alemães não conseguem
compreender como é importante a coesão
social para nós", diz Azad.
"Não quero me casar"
Todos os domingos, os membros da sua família
-um total de 40 ou 50 pessoas - se congregam
na casa dos pais de Azad. Eles se sentam
na sala em almofadas em torno de mesas baixas.
Quando o pai de Azad entra na sala, todo
mundo se levanta. Ele é o mais velho,
a figura de autoridade. "O paxá",
diz Azad.
Em um desses domingos, pouco antes de seu
noivado, Azad não podia mais agüentar.
"A pressão e as expectativas
eram demais". Ele foi para a cozinha,
onde começou a chorar. Sua irmã
mais velha o seguiu e perguntou qual era
o problema. "Não quero me casar",
disse ele.
Na sala, a família logo compreendeu
que algo estava errado. Os garfos caíram
no arroz, o chá ficou frio. A cozinha
foi se enchendo gradualmente de mulheres.
A mãe de Azad entrou, caiu no chão
e começou a chorar. Outras entraram
e se uniram a ela nos ladrilhos do chão
da cozinha. Azad, em pé no meio das
mulheres, finalmente disse: "Está
certo. Eu o farei."
Não é sempre fácil
traçar uma linha clara entre um casamento
arranjado e um casamento forçado.
"Para minha irmã foi tranqüilo
casar com um primo", diz Azad. "Mas,
para mim, nunca".
A coerção vem apenas na forma
de ameaça e violência física,
ou já se aplica quando a pessoa simplesmente
tem medo de desapontar a família
e não atender as expectativas? "Alguns
nunca nem mesmo imaginam que seus pais poderiam
fazer uma decisão errada", diz
o psicólogo Erdogan.
A família de Azad não usou
de violência física para forçá-lo
a se casar. A ameaça de suicídio
de sua mãe instável foi pressão
suficiente. "Meu pai não me
bateu", diz ele, mas depois se corrigiu:
"Bem, ele me batia freqüentemente.
Bastante severamente, de fato. Mas não
diretamente antes do casamento".
Azad concordou com a união com sua
prima porque era o que se esperava dele
e porque não queria desapontar a
família. "Eu tinha tremendo
respeito pelo meu pai", diz ele. "Eu
não queria ser uma desgraça
para ele".
As festividades do casamento, com 300 convidados,
começaram bastante alegremente. Pela
primeira vez, Azad viu seu pai dançando
de forma exuberante danças curdas.
"Tive uma sensação tão
calorosa em meu coração naquele
momento", diz Azad. "Eu pensei
que aquele era meu destino, que não
havia outro caminho".
Entretanto, depois de estar casado por
algumas semanas, ficou claro para Azad que
aquilo não estava funcionando. Ele
e sua nova mulher moravam na casa dos pais.
Seu quarto era ao lado do quarto da sua
irmã e o marido, que vinha a ser
irmão da mulher de Azad.
"Eu ia para a cama às 21h30,
para que não tivesse que dormir com
a minha prima. Ou então eu saía
e me divertia com outras meninas",
diz ele.
As mulheres não têm essa liberdade.
Elas são forçadas a se sentar
em casa com seus sogros, enquanto os homens
podem embarcar em escapadas. E há
outro problema, diz o psicólogo de
Berlim Erdogan: "Alguns homens ventilam
sua frustração em suas esposas
e se tornam violentos". O potencial
para tal frustração é
especialmente alto entre noivos importados,
diz ele.
Os noivos freqüentemente não
estão preparados para a vida na Europa.
Com seu fraco comando da língua,
eles têm dificuldade de encontrar
emprego e para lidar com a burocracia alemã.
Isso pode causar uma confusão sobre
os papéis sociais. "Para alguns,
é insuportável receber ' mesada'
de suas mulheres e não serem capazes
de preencher um formulário",
disse Erdogan.
Exílio em Munique
Azad nunca bateu na prima. Em vez disso,
depois de alguns meses, ele simplesmente
foi embora. "Eu não queria mais
fingir que estava tudo bem em casa",
diz ele. Ele já tinha tentado partir
antes, mas toda vez ele voltava. Certa vez,
em um abrigo para sem-teto, ele recebeu
a notícia que sua mãe estava
mortalmente doente. No final, ela estava
simplesmente fraca. Noutra vez, Azad se
meteu em "uma grande enrascada",
como diz, e precisou da ajuda da família
para pagar uma dívida de honra de
15.000 euros (cerca de R$ 45.000). Sua escolha
era pagar a família ofendida ou ser
vítima de morte por honra. O pai
de Azad, proprietário de vários
restaurantes turcos, pagou a soma.
Apenas quando Azad conheceu Laura, de 18
anos, por meio de amigos, ele finalmente
conseguiu sair de casa. Em maio deste ano,
ele simplesmente foi embora -sem identificação,
sem dinheiro, sem nada. Ele se mudou para
o minúsculo apartamento de Laura
em Munique.
"Tínhamos tanto medo que algo
ia dar errado", diz Laura, que é
loura e trabalha como vendedora. "Um
medo mortal", diz ele. "Quem sabe
o que meu pai teria feito se tivesse nos
encontrado".
Os dois estão sentados, de mãos
dadas, na frente do City Lounge, na praça
Karlsplatz, em Munique. Azad ainda está
casado, "mas apenas no papel",
diz ele. "Acabou". Está
usando as roupas de quando deixou a casa
dos pais -jeans, jaqueta preta, tênis
Nike. Ele tem poucas roupas.
"Estamos no processo de juntar as
coisas, parte por parte", diz Laura.
Azad começou a trabalhar para uma
agência temporária de emprego
há poucos dias. "As coisas estão
acontecendo", disse ele, "Lentamente,
mas seguramente".
Enquanto isso, Azad conversou com a irmã
ao telefone. "Meu pai nunca mais vai
falar comigo, isso está claro",
diz ele. "Talvez, contudo, meu relacionamento
com meus irmãos se resolva".
Ele diz que poderia perdoar o resto da sua
família, mas nunca seu pai. "Tudo
o que eles fizeram foi obedecer".
O rapaz de 20 anos não tem planos
imediatos de se divorciar: os documentos
que ele precisa estão em uma gaveta
na casa da família em Stuttgart.
Além disso, ele não tem dinheiro.
"Tampouco posso fazer isso com minha
prima. Não é culpa dela que
tudo isso tenha acontecido", diz ele.
"Retornar à Anatólia
como mulher divorciada seria uma desgraça
para ela".
Fonte: Der Spiegel