de concluir o ensino médio e ajudar
os irmãos a estudar, planejava finalmente
se formar advogado. Ao reduzir a marcha
para cruzar um obstáculo, uma seqüência
rápida de eventos virou sua vida
de pernas para o ar e desfez seus sonhos.
Quatro homens surgiram em duas motocicletas
como se tivessem brotado do asfalto e cercaram
seu carro. Apontando armas, ordenaram aos
gritos que abrisse as portas. Cruz se tornara
vítima de seqüestro, algo que
pensava ser improvável acontecer
a um cidadão de classe média
e só atingisse os grandes empresários.
No caminho para o cativeiro, levou coronhadas
e foi abandonado na entrada de uma favela
depois que os seqüestradores souberam
que a polícia os seguia. Antes de
o liberarem, bateram mais. Cruz recebeu
chutes e socos e ficou caído na lama,
com as pernas dormentes e a visão
embaçada, sem conseguir se mexer.
Só recobrou a consciência quando
três pessoas o ajudaram. Um casal
de namorados o levou para tomar água
com açúcar e avisou a polícia.
A terceira pessoa, um jovem, se propôs
a resgatar o carro, mas tentou furtar o
toca-CD de Cruz. “Eu estava muito
fragilizado e aquele rapaz agiu daquela
maneira”, conta Cruz. O desapontamento
foi tão profundo que mudou sua vida.
“Passei a desconfiar de todo mundo.”
Durante a recuperação em
casa na semana seguinte, Cruz começou
a receber ameaças de morte por telefone
e aos poucos não se sentia mais seguro
em lugar nenhum. Trancou-se em casa e passou
quatro anos sem visitar os irmãos
no bairro vizinho. Nem sequer tinha coragem
de chegar ao portão. “Quando
alguém se aproximava, eu suava frio
e tinha palpitações”,
conta. Uma vez desmaiou na calçada
ao perceber um motoqueiro por perto. Preso
em sua própria casa, passou a comer
compulsivamente. Em pouco tempo ganhou mais
de 50 quilos e se tornou diabético
e hipertenso. Três anos atrás
concluiu que não valia mais a pena
viver. Subiu ao 15º andar do prédio
para o qual se mudara e sentou no parapeito,
pronto para pular. Só não
se jogou porque se lembrou da mãe,
que nas aulas de catecismo ensinava às
crianças que o suicídio é
o maior dos pecados.
Dois dias depois de escapar pela segunda
vez da morte Cruz foi a uma consulta no
Programa de Atendimento e Pesquisa em Violência
(Prove) da Universidade Federal de São
Paulo (Unifesp), levado pela mulher, com
quem está casado há 16 anos.
Ali descobriu que, além das dores
físicas das primeiras semanas, o
seqüestro relâmpago havia deixado
feridas emocionais profundas que levariam
bem mais tempo para cicatrizar. O psiquiatra
que o atendeu explicou que ele estava sofrendo
o chamado transtorno de estresse pós-traumático,
um distúrbio emocional altamente
incapacitante em geral apresentado por ex-combatentes
de guerra, que apenas nos últimos
anos começou a ser investigado no
Brasil.
Nas sessões de terapia em grupo
Cruz ficou mais tranqüilo ao saber
que não estava sozinho, nem era o
único a não se livrar das
lembranças daquela noite que insistiam
em aparecer apesar de seu esforço
para esquecê-las ou do pavor que passou
a sentir de estranhos. Na cidade de São
Paulo uma em cada dez pessoas que no último
ano sofreu episódios de violência
que pôs em risco suas vidas (assalto,
seqüestro, agressões físicas
ou abuso sexual) apresenta os sinais de
transtorno de estresse pós-traumático,
de acordo com o primeiro levantamento sobre
a ocorrência do problema realizado
no país. Coordenado pelo psiquiatra
Jair de Jesus Mari, da Unifesp, esse estudo
se baseou na avaliação de
2.530 moradores de diferentes regiões
e segmentos socioeconômicos da capital
paulista (amostra representativa da população
paulistana) e foi apresentado em São
Paulo no final de junho no 1º Simpósio
Internacional sobre Violência e Saúde
Mental. “Esses dados fornecem um argumento
valioso para que se exijam políticas
públicas de segurança mais
eficazes”, afirma a antropóloga
Alba Zaluar, da Universidade do Estado do
Rio de Janeiro, estudiosa das causas da
violência no Brasil.
Extrapolada para a população
da maior metrópole da América
do Sul, esses 10% de portadores de estresse
pós-traumático correspondem
a 1,1 milhão de pessoas que nos últimos
12 meses sofreram ou testemunharam situações
violentas e desenvolveram problemas emocionais
debilitantes o suficiente para impedi-las
de seguir com a vida normal, muitas vezes
levando-as a abandonar o trabalho e a alterar
também o cotidiano de seus familiares.
É como se a cada ano a população
de uma cidade como Campinas, a segunda mais
populosa do estado, adoecesse a ponto de
necessitar de atendimento médico
e psicológico. Quando os pesquisadores
ampliaram o período analisado para
a vida toda, a ocorrência de estresse
pós-traumático mais que dobrou:
26% dos paulistanos – o equivalente
a 2,8 milhões de pessoas ou
quase a população de Salvador,
a terceira cidade mais populosa do país
– apresentaram sinais compatíveis
ao desse problema emocional disparado pela
violência. Nem Mari nem muitos do
grupo por ele coordenado, que inclui quase
50 pesquisadores de São Paulo, Rio
de Janeiro, Pernambuco e Ceará, esperavam
taxas tão elevadas, cerca de três
vezes mais altas do que a estimada para
a população norte-americana.
Iniciada em 2006 essa pesquisa não
se restringe a coletar informações
sobre a população paulistana.
Na Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ) a equipe do psiquiatra Ivan Figueira
está concluindo um levantamento semelhante
com 1.500 moradores de diferentes pontos
da capital fluminense, dos prédios
na orla aos morros cariocas. A expectativa
é de que o resultado seja semelhante.
“São números de um
país em guerra”, afirma Marcelo
Feijó de Mello, psiquiatra da Unifesp
especialista em transtorno de estresse pós-traumático
e membro da rede brasileira que investiga
os efeitos da violência sobre a saúde
mental da população. O comentário
de Mello não é apenas uma
metáfora. A ocorrência de distúrbio
psiquiátrico nas duas cidades brasileiras
com os mais elevados índices absolutos
de violência é próxima
– e algumas vezes superior –
à observada em países que
recentemente passaram por guerras ou conflitos
armados internos como Argélia, Camboja
e Etiópia. Nessas nações
a taxa de estresse pós-traumático
na população é, respectivamente,
37%, 28%, 16%.
Só que o Brasil não está
em guerra, ao menos não uma guerra
declarada. “Enquanto nos Estados Unidos
e na Europa a violência é decorrente
de ataques terroristas ou da participação
de militares em conflitos no exterior, no
Brasil é conseqüência
de uma espécie de guerra urbana”,
comenta Mari. Ainda que seja difícil
medir essa forma de violência em toda
a sua extensão, estudos recentes
conseguem detectar ao menos sua face mais
evidente e letal: os homicídios.
Dados de mortalidade do Saúde Brasil
2006, documento compilado pelo Ministério
da Saúde, indicam que um em cada
20 mortos no país é vítima
de homicídio, na maioria dos casos
assassinatos envolvendo o uso de armas de
fogo, que tiraram a vida de quase 50 mil
brasileiros apenas em 2004. É um
problema que vem crescendo nas últimas
décadas: o índice de pessoas
que perdem a vida vítimas de agressão
passou de 14,1 mortes para cada grupo de
100 mil habitantes em 1980 para 27,2 por
100 mil em 2004. Três vezes superior
à média mundial de homicídios
calculada pela Organização
Mundial da Saúde, essa taxa reflete
apenas a média nacional. Em cidades
brasileiras como Rio, São Paulo e
Recife esse índice é bem mais
elevado, em especial entre os jovens do
sexo masculino, alcançando por vezes
valores superiores aos de Cali, na Colômbia,
que no início da década de
1990 era considerada uma das cidades mais
violentas do mundo.
É uma guerra urbana em que todos
perdem. Perdem os que morrem e também
os que sobrevivem ao bangue-bangue das metrópoles
brasileiras – só na capital
paulista houve 36 mil crimes violentos (assassinatos,
roubos e estupros) no primeiro trimestre
de 2008 – e mais tarde têm de
enfrentar os efeitos colaterais da violência,
como ansiedade, depressão e também
o estresse pós-traumático.
O avanço da violência nas últimas
décadas se encarregou de trazer para
as cidades um problema emocional que até
meados do século passado se imaginava
ser exclusivo dos campos de batalha. O que
hoje os manuais diagnósticos de saúde
mental tratam como transtorno de estresse
pós-traumático, um quadro
grave de ansiedade decorrente de uma situação
extrema de estresse, com ameaça
à vida, foi descrito inicialmente
no final do século XIX pelo neurologista
e psicólogo francês Pierre
Janet. Marcado por pesadelos, insônia,
irritabilidade e lembranças recorrentes
e indesejadas da situação
que o gerou – ou ainda pela reação
exagerada a sons e imagens associados a
essa situação –, esse
quadro mais tarde se tornaria conhecido
como neurose de guerra ou estresse de combate
e atrairia o interesse de outro renomado
neurologista, o austríaco Sigmund
Freud, criador da psicanálise.
Durante a Primeira Guerra Mundial, Freud
e outros psicanalistas puderam monitorar
combatentes que chegavam aos hospitais com
paralisia, tremores, pesadelos recorrentes,
perda de desejo sexual. Em comum esses pacientes
haviam passado por uma situação
traumática, em geral a perda de companheiros
ou a proximidade da própria morte
durante os combates, além de privação
intensa e esgotamento físico. Por
influência dos veteranos do Vietnã,
o estresse de combate entraria em 1980 pela
primeira vez para o manual de diagnóstico
de saúde mental, o Diagnostic and
Statistic Manual of Mental Disorders (DSM),
com o nome de transtorno de estresse pós-traumático.
Nas trincheiras ou nas ruas das metrópoles
o transtorno de estresse pós-traumático
é disparado por uma característica
específica: a ameaça de morte.
“Durante o episódio violento,
as pessoas que desenvolvem estresse pós-traumático
têm a percepção nítida
de que vão morrer ou de que, no mínimo,
algo se perdeu para sempre e a vida mudou”,
conta o psiquiatra José Paulo Fiks,
da equipe da Unifesp que realizou o levantamento
em São Paulo. Do ponto de vista da
psicanálise, uma ameaça extrema
e imprevista como a de morte pode produzir
no sujeito um impacto afetivo tão
intenso que ele não consegue assimilar
e incorporar à história de
sua vida, explica Sidnei Casetto, professor
de teoria freudiana do Departamento de Ciências
da Saúde da Unifesp na Baixada Santista.
Como resultado, ele passa a rever repetidamente
o evento que gerou o trauma na tentativa
de dar-lhe um significado e o esquecer,
deixando de ser uma espécie de prisioneiro
do tempo.
Assim como Freud, muitos dos que estudam
atualmente o estresse pós-traumático
acreditam que o episódio violento
que o dispara, na realidade, não
é sua causa primordial. Sua origem
estaria escondida no passado, muitas vezes
em algum trauma ocorrido na infância,
que seria novamente trazido à tona.
“A situação recente
em que a vida esteve em risco resgataria
uma situação anterior, que
permaneceu encapsulada”, comenta a
psicóloga Mariana Pupo, também
da Unifesp.
Os dados clínicos corroboram esse
raciocínio. Avaliando a história
de cem portadores de estresse pós-traumático
atendidos no Prove, Mariana, Aline Schoedl
e Marcelo Feijó de Mello constataram
que metade deles havia passado por situação
extremamente violenta na infância
ou na adolescência: 48% sofreram abuso
sexual antes dos 18 anos. Feito em parceria
com Linda Carpenter e Lawrence Price, da
Universidade Brown, nos Estados Unidos,
esse trabalho mostrou ainda que o risco
de desenvolver estresse pós-traumático
está intimamente relacionado à
fase da vida em que ocorreu o abuso. Vítimas
de violência sexual na adolescência
(entre 13 e 18 anos) apresentaram risco
dez vezes maior de desenvolver transtorno
de estresse pós-traumático
na vida adulta do que as que haviam passado
pela mesma situação antes
dos 12 anos. Já o abuso sexual na
infância (até os 12 anos) aumentou
a probabilidade de desenvolver depressão
numa fase posterior da vida, segundo artigo
a ser publicado em breve na Child Abuse
and Neglect.
O levantamento com 2.530 moradores de São
Paulo indicou também que nem sempre
são os eventos violentos considerados
mais graves, a exemplo dos assaltos à
mão armada ou de seqüestros
com tortura como o vivenciado por José
Orleans Cruz anos atrás, que disparam
o estresse pós-traumático.
A maior parte dos casos identificados na
capital paulista decorre de agressão
doméstica (brigas entre casais, violência
contra os filhos ou abuso sexual cometido
por cônjuge ou parente), segundo o
psiquiatra Sergio Baxter Andreoli, responsável
pelos dados epidemiológicos do estudo
na cidade de São Paulo.
Grupos específicos da população
parecem correr maior risco de desenvolver
estresse pós-traumático que
os demais. Em 2004 Deborah Maia e Ivan Figueira,
da UFRJ, analisaram a ocorrência de
estresse pós-traumático entre
policiais da tropa de elite de Goiás.
Dos 155 policiais que participaram do estudo,
9% apresentavam no momento da entrevista
os sintomas que caracterizam o quadro de
estresse pós-traumático –
e outros 16% manifestavam parte dos sinais,
que se tornaram conhecidos da população
no esgotamento apresentado pelo Capitão
Nascimento, do Batalhão de Operações
Policiais Especiais (Bope), interpretado
pelo ator Wagner Moura no filme Tropa de
elite, de José Padilha. Esses policiais
com sintomas de estresse pós-traumático
relatavam se encontrar com a saúde
mais debilitada e ter passado por mais consultas
e internações médicas
que os demais, como detalharam os pesquisadores
em artigo publicado em 2007 no Journal of
Affective Disorders.
Durante um assalto à mão
armada, seqüestro ou estupro, o impacto
emocional da violência pode ser tão
intenso que a vítima manifesta um
recurso extremo de defesa. Como se congelasse
instantaneamente, o corpo paralisa, sem
forças para reagir ou gritar. Comum
entre presas ante seus predadores –
a exemplo de um rato atacado por uma águia
–, essa reação involuntária
pode ajudar a predizer como evoluirá
o tratamento do indivíduo, em geral
baseado em sessões de psicoterapia
associadas ao uso de medicamentos antidepressivos
que agem sobre o neurotransmissor serotonina
e ajudam em 80% dos casos. Em um estudo
com 23 pessoas vítimas de violência
urbana (na maioria dos casos assalto à
mão armada), publicado recentemente
no Journal of Affective Disorders, dez desenvolveram
paralisia e responderam pior ao tratamento
com antidepressivos, constataram Figueira
e a psiquiatra Adriana Fiszman, da UFRJ.
O trabalho dos grupos coordenados por Jair
Mari e Ivan Figueira não se restringe
a verificar os índices de estresse
pós-traumático nas populações
das principais metrópoles brasileiras.
As equipes de São Paulo e do Rio
também buscam compreender melhor
aspectos ainda obscuros desse transtorno
emocional: as alterações que
provocam no funcionamento do organismo muitos
anos depois do episódio violento;
a identificação de fatores
biológicos e ambientais que predispõem
ao desenvolvimento do estresse pós-traumático
ou protegem dele; além de tratamentos
medicamentosos e psicológicos mais
eficientes.
Analisando amostras de saliva coletadas
durante a entrevista com a população
da capital paulista, Marcelo Feijó
Mello constatou que as pessoas com sinais
de transtorno do estresse pós-traumático
também apresentavam um desequilíbrio
hormonal importante, semelhante ao observado
em estudos realizados em outros países.
Provavelmente em conseqüência
do estresse e da ansiedade prolongada provocados
pelo episódio violento, o organismo
delas produz níveis mais baixos do
hormônio cortisol, associado ao estresse.
Parece contraditório, mas não
é. Esse resultado sugere que elas
se tornaram mais sensíveis à
ação desse hormônio.
Por essa razão, taxas menores na
corrente sangüínea provocam
efeitos mais exacerbados, como as palpitações
e o alerta redobrado que Cruz sentia ao
avistar um motoqueiro. Esse efeito, que
pode fazer a diferença entre a vida
e a morte por preparar o organismo para
escapar de um agressor, é extremamente
danoso quando dura mais que alguns instantes
porque provoca a morte de células
cerebrais.
Os resultados ainda são preliminares,
mas essa morte celular parece afetar uma
área cerebral associada à
aquisição da memória,
o hipocampo. A anatomista Andrea Jackowski
comparou imagens de ressonância nuclear
magnética do cérebro de 55
pessoas vítimas de violência
em São Paulo (35 haviam desenvolvido
estresse pós-traumático e
20 permaneciam saudáveis) e observou
uma redução de até
10% no volume do hipocampo, possivelmente
associada à morte celular. “Ainda
não sabemos dizer se o estresse pós-traumático
provoca a diminuição do hipocampo
ou, ao contrário, se as pessoas que
já apresentavam hipocampo menor eram
mais propensas a desenvolver o problema”,
explica Andrea.
Esse é outro achado aparentemente
contraditório. Mas já é
de esperar que não haja resposta
simples para uma enfermidade que pode ser
provocada por diversos fatores e que envolve
um órgão tão complexo
como o cérebro. Se o centro associado
à aquisição da memória
é menor nos portadores de estresse
pós-traumático, eles não
deveriam se lembrar menos do que se passou?
Na verdade não. É que eventos
de forte conteúdo emocional –
um revólver engatilhado apontado
para a cabeça, por exemplo –
acionam também outra área
cerebral chamada amígdala, responsável
pela aquisição da memória
de eventos desagradáveis. Em uma
pessoa saudável, o funcionamento
da amígdala é inibido pelo
córtex frontal, a região mais
anterior do cérebro, situada próximo
à testa. Andréa tenta agora
identificar se as pessoas com estresse pós-traumático
também apresentam uma redução
no volume do córtex frontal, o que
explicaria o funcionamento exagerado da
amígdala e o estado de hipervigilância.
Em uma vertente pouco usual nos estudos
de doenças psiquiátricas,
a geneticista Camila Guindalini está
analisando cerca de 1.500 amostras de saliva
coletadas durante as entrevistas com os
moradores de São Paulo de pessoas
vítimas de violência que desenvolveram
ou não estresse pós-traumático.
Ela tenta identificar alterações
específicas nos quase 21 mil genes
humanos que afetam o funcionamento do sistema
nervoso central e possam favorecer o desenvolvimento
do estresse pós-traumático
ou mesmo aumentar a resistência a
esse distúrbio emocional. Estudos
internacionais sugerem uma contribuição
de aproximadamente 30% dos fatores genéticos
para o desenvolvimento do estresse pós-traumático
– os outros 70% ficariam por conta
do ambiente (condições socioeconômicas,
educacionais e suporte social). Camila também
pretende ver como se comportam na população
brasileira variações em genes
específicos ligados ao funcionamento
de neurotransmissores ou ao desenvolvimento
de células cerebrais e à fixação
da memória. “Com uma amostra
tão grande, conseguiremos identificar
efeitos pequenos provocados pelos genes”,
diz. Ainda que não expliquem tudo,
podem ajudar a entender o problema.
Enquanto não se chega a um quadro
mais claro sobre possíveis fatores
biológicos associados ao estresse
pós-traumático, capazes de
levar a mudanças nos tratamentos
atuais, a equipe da Unifesp testa uma terapia
psicológica alternativa em grupo
de pessoas no qual os antidepressivos e
as terapias psicológicas mais usuais
não surtiram o efeito desejado. Em
vez de expor o indivíduo a situações
semelhantes àquela que gerou o trauma,
como propõe a terapia cognitivo-comportamental,
a equipe de Rosaly Braga Campanini tenta
restaurar, com a chamada terapia interpessoal
de grupo, os laços sociais (na família,
no trabalho e na comunidade) que os portadores
de estresse pós-traumático
em geral perderam. Até o momento
as 30 pessoas que passaram por sessões
semanais de terapia interpessoal apresentaram
melhora importante, com redução
das lembranças do trauma e recuperação
da relação com familiares
e amigos.
Apesar dos avanços, Mari afirma
que ainda é preciso trabalhar muito
mais para tentar compreender por que a maior
parte das vítimas de violência
não desenvolve estresse pós-traumático
ou conseguir alternativas de tratamento
que devolvam aos portadores desse distúrbio
emocional a vida em sociedade como aconteceu
com José Orleans Cruz. Hoje recuperado,
Cruz voltou a dirigir e retomou os passeios
com a mulher. Toda semana vai à feira,
comer pastel e olhar os produtos barraca
por barraca. Até já faz planos
para o futuro. Pretende se aposentar em
alguns anos e retornar para Itapagé,
no interior do Ceará, de onde, com
os pais e irmãos, veio adolescente
para São Paulo. “Vou criar
ovelhas”, diz. “Quero esquecer
a cidade grande e o que aconteceu comigo.”
Fonte:Ultimo Segundo