própria sobrevivência. A tal
ponto que um número cada vez maior
de cientistas não hesita a falar
de uma sexta extinção, que
será provocada pelas importantes
alterações introduzidas pelo
ser humano na natureza e no meio ambiente.
Esta nova extinção deverá
se suceder às cinco precedentes,
que estabeleceram o ritmo da vida na Terra.
A União Internacional para a Conservação
da Natureza (UICN), com sede na Suíça,
que desenvolve estudos sobre 41.415 espécies
(de um total de cerca de 1,75 milhão
conhecidas) para elaborar sua lista vermelha
anual, avalia que 16.306 dentre elas estão
ameaçadas. Ou seja, um mamífero
em cada quatro, uma ave em cada oito, um
terço de todos os anfíbios
e 70% de todas as plantas estudadas estão
correndo perigo, segundo a UICN.
Será ainda possível frear
esse declínio das espécies,
que corre o risco de ampliar-se quando o
nosso planeta atingir 9,3 bilhões
de humanos em 2050? Os biólogos americanos
Paul Ehrlich e Robert Pringle (da universidade
Stanford, na Califórnia) acreditam
que isso seja possível, com a condição
de que diversas medidas radicais sejam tomadas
no plano mundial. Eles apresentam essas
medidas num relatório publicado em
12 de agosto na revista especializada americana
"Proceedings of The National Academy
Of Sciences" (PNAS - Minutas da Academia
Nacional de Ciências), numa edição
que dedica um dossiê especial à
sexta extinção.
Em preâmbulo, os dois pesquisadores
não hesitam a declarar que "o
futuro da biodiversidade no decorrer dos
próximos 10 milhões de anos
será certamente determinado pelo
que acontecerá nos próximos
50 a 100 anos que estão por vir,
em função da atividade de
uma única espécie, o Homo
sapiens, que tem apenas 200.000 anos de
existência". Se considerarmos
que as espécies de mamíferos
- às quais nós pertencemos
- têm uma vida útil de um milhão
de anos em média, isso coloca o Homo
sapiens em meados da sua adolescência.
Este "adolescente" mal-criado,
"um narcisista que pressupõe
a sua própria imortalidade, andou
maltratando o ecossistema que o criou e
o mantém em vida, sem preocupar-se
com as conseqüências dos seus
atos", acrescentam severamente Paul
Ehrlich e Robert Pringle.
Consumo excessivo
Segundo os dois cientistas, é preciso
insuflar uma mudança de mentalidade
profunda, de maneira que a humanidade enxergue
a natureza com outros olhos. Isso porque
"a idéia segundo a qual o crescimento
econômico é independente da
saúde do meio ambiente e que a humanidade
pode expandir indefinidamente sua economia
é uma perigosa ilusão",
afirmam Ehrlich e Pringle. Para enfrentar
esta perda de rumo, é preciso começar
controlando o ritmo da expansão demográfica
e diminuindo nosso consumo excessivo dos
recursos naturais, dos quais uma boa parte
serve para saciar gostos supérfluos
e não para as necessidades fundamentais.
Por exemplo, a piscicultura e a avicultura
são atividades menos onerosas em
termos de transportes e de consumo de combustível,
do que a criação dos porcos
e dos bois, dois animais reunidos no sacrossanto
cheeseburger com bacon...
Os autores do estudo propõem um
outro ângulo de ataque: os serviços
oferecidos pela biosfera são numerosos
e gratuitos. Ela fornece as matérias-primas;
os sistemas naturais de filtração
das águas; a estocagem do carbono
pelas florestas; a prevenção
da erosão e das inundações
pela vegetação, além
da polinização das plantas
por vários tipos de insetos e de
pássaros. Por si só, esta
última atividade movimenta cerca
de US$ 1,5 bilhão (cerca de R$ 2,4
bilhões) nos Estados Unidos. Com
isso, seria extremamente necessário
avaliar os custos dos serviços oferecidos
pela natureza e incluí-los nos cálculos
econômicos, de tal modo que se possa
garantir sua proteção.
Para financiar o desenvolvimento das áreas
protegidas, cujo número é
insuficiente e que são excessivamente
parceladas, Paul Ehrlich e Robert Pringle
propõem que se recorra a fundações
privadas dedicadas à conservação.
Esta solução apresenta a vantagem
de ser menos custosa para os contribuintes
e permite gerar quantias importantes. Na
Costa Rica, um fundo desse tipo, o Paz Con
La Naturaleza, arrecadou US$ 500 milhões
(cerca de R$ 800 milhões), quantia
esta que servirá para financiar o
sistema de conservação do
país. É possível igualmente
associar de maneira mais estreita pastores
e agricultores nas tarefas de preservação
da biodiversidade, evitando impor-lhes decisões
em relação às quais
eles não têm nenhum poder de
controle, e com a condição
de que a sua fonte de renda seja preservada.
Esse processo deve ser viabilizado por meio
de explicações e de uma melhor
educação neste campo. Contudo,
nada impede que esforços também
sejam empenhados na restauração
das áreas onde o habitat foi deteriorado.
Entretanto, os dois pesquisadores se dizem
preocupados diante do divórcio crescente,
nos países industrializados, entre
a população e a natureza,
divórcio esse gerado pela utilização
intensiva da multimídia. Eles constatam
que, "nos Estados Unidos, a expansão
das mídias eletrônicas coincidiu
com uma diminuição importante
das visitas nos parques nacionais, depois
de um crescimento ininterrupto que durou
cinqüenta anos". Além disso,
ao que tudo indica, fenômenos similares
andaram ocorrendo em outros países
desenvolvidos. Diante dessa tendência,
mostrando com isso que eles também
têm um senso inegável do que
é oportuno, Paul Ehrlich e Robert
Pringle propõem que se acrescente
uma dimensão ecológica aos
universos virtuais mais conhecidos, tais
como o Second Life.
O FIM DO MUNDO?
Os primórdios da vida remontam a
3,7 bilhões de anos. Mas foi preciso
esperar até a explosão do
período cambriano, há 500
milhões de anos (Ma), para que apareçam
os primeiros organismos marinhos complexos.
A partir dessa data, cinco grandes extinções
ocorreram.
A PRIMEIRA, HÁ 440 MA, fez desaparecerem
65% das espécies, todas elas marinhas.
Glaciações importantes, seguidas
por um forte aquecimento teriam provocado
grandes flutuações dos níveis
marinhos.
A SEGUNDA, HÁ 380 MA, provocou a
morte de 72% das espécies, em sua
maior parte espécies marinhas. A
catástrofe teria ocorrido devido
a um esfriamento global que se sucedeu à
queda de vários meteoritos.
A TERCEIRA, HÁ 250 MA, foi tão
importante que a vida por pouco não
conseguiu renascer. Segundo estimativas,
90% de todas as espécies (marinhas
e terrestres) desapareceram. As causas dessa
catástrofe até hoje vêm
sendo debatidas, mas, acredita-se que imensas
massas de lava em fusão que arrebentaram
na Sibéria, possivelmente provocadas
pela queda de um asteróide, alteraram
profundamente o clima e diminuíram
o oxigênio, o qual se dissolveu na
água dos mares.
A QUARTA, HÁ 200 MA, é associada
à abertura do oceano Atlântico
e ao surgimento de importantes massas de
lava em fusão que aqueceram o clima.
65% das espécies desapareceram.
A QUINTA, HÁ 65 MA, é a mais
conhecida, uma vez que ela é associada
ao desaparecimento dos dinossauros e de
62% das espécies. Entre as causas
apresentadas estão a queda de um
asteróide no golfo do México
e o surgimento de importantes massas de
lava em fusão na Índia.
MAIS PERTO DA NOSSA ÉPOCA, NO DECORRER
DE UM PERÍODO QUE VAI DE 50.000 A
3.000 ANOS, antes dos nossos dias, a metade
das espécies dos grandes mamíferos
que pesavam mais de 44 kg desapareceu. Alguns
pesquisadores incriminam principalmente
o homem e consideram que a sexta extinção,
aquela que é provocada pela ação
do Homo sapiens, já começou.
Fonte: Le Monde