as mulheres e os animais eram considerados
uma coisa só", diz Keqi, que tem
uma voz forte de barítono, senta-se
com as pernas abertas como um homem e gosta
de tomar tragos de raki e de fumar cigarros.
"Agora as mulheres albanesas têm
direitos iguais aos dos homens e são
até mais poderosas. Acho que atualmente
seria divertido ser mulher".
Essas virgens juramentadas tornaram-se patriarcas
das suas famílias, com todas as prerrogativas
da autoridade masculina, ao fazerem voto permanente
de virgindade.O ritual era uma forma de conquista
de poder pessoal para as mulheres da zona
rural de uma região terrivelmente pobre
e regida por valores machistas, que ficou
isolada do resto da Europa durante décadas,
sob uma ditadura stalinista. Mas na Albânia
contemporânea, com paqueras pela Internet
e a MTV, esse costume está desaparecendo.
As meninas não querem mais ser meninos.
A tradição das virgens juramentadas
remonta ao Kanun de Leke Kukagjini, um código
de conduta que foi passado verbalmente entre
os clãs do norte da Albânia durante
mais de cinco séculos. Segundo o Kanun,
o papel das mulheres era severamente restrito.
Elas tomavam conta das crianças e do
lar. Embora a vida de uma mulher valesse a
metade da vida de um homem, a de uma virgem
tinha o mesmo valor que a deste último
-12 bois. A virgem juramentada foi um fruto
da necessidade social em uma região
agrária flagelada pela guerra e pela
morte. Caso o patriarca da família
morresse sem deixar herdeiros masculinos,
as mulheres casadas da família poderiam
ver-se sozinhas e sem poder algum. Ao fazer
um voto de virgindade, as mulheres podiam
assumir o papel masculino como chefes de família,
portar armas, ser proprietárias e locomover-se
livremente.
Elas vestem-se como homens, adotam uma postura
masculina e passam a vida na companhia de
outros homens.Algumas também fizeram
o voto como forma de evitar os casamentos
arranjados. E outras tornaram-se virgens juramentadas
para expressar a sua autonomia. Algumas arrependeram-se
do sacrifício, voltaram a ser mulheres
e, mais tarde, casaram-se.
"Renunciar à sexualidade ao jurar
permanecer virgem era uma forma encontrada
por essas mulheres para engajar-se na vida
pública em uma sociedade segregada
e dominada pelos homens", afirma Linda
Gusia, professora de estudos da mulher da
Universidade de Pristina, em Kosovo.
"Tratava-se de sobreviver em um mundo
no qual os homens mandavam".
Segundo os sociólogos, o fato de uma
pessoa fazer um voto de virgindade não
quer dizer que ela seja homossexual, algo
que há muito tempo é um tabu
na Albânia rural. E as mulheres tampouco
passam por mudança de sexo. Na zona
rural do norte da Albânia, restam ainda
cerca de 40 virgens juramentadas, segundo
os pesquisadores que estudam esse costume.
Conhecida em casa como "Pasha",
Keqi conta que decidiu tornar-se o homem da
casa aos 20 anos, quando o seu pai foi assassinado
durante uma briga. Os seus quatro irmãos
opuseram-se ao regime comunista de Enver Hoxha,
que governou a Albânia durante 40 anos,
até a sua morte em 1985, e foram ou
presos ou mortos. Ela diz que tornar-se homem
foi a única forma que encontrou de
sustentar a mãe, as quatro cunhadas
e os cinco sobrinhos.
Reinando sobre a grande família na
sua casa modesta em Tirana, onde as sobrinhas
lhe servem brandy enquanto ela grita ordens,
Keqi diz que viver como homem lhe permitiu
ter a liberdade negada a outras mulheres.
Ela podia trabalhar na construção
civil e rezar na mesquita ao lado dos homens.
Mesmo hoje, os seus sobrinhos dizem que não
ousariam casar-se sem a permissão do
"tio".
"Como homem eu tinha total liberdade
porque ninguém sabia que eu era mulher",
diz Keqi. "Eu podia ir aonde bem entendesse
e ninguém ousava me xingar porque tomaria
uma surra. Eu só convivia com homens.
Não sei como as mulheres falam. Nunca
sinto medo". Ela recorda-se de que, quando
foi recentemente hospitalizada para passar
por uma cirurgia, as outras mulheres no quarto
ficaram horrorizadas ao descobrir que compartilhavam
o aposento com um homem, e pediram transferência
para um outro quarto.
Keqi afirma que o fato de ser mulher fez
dela um homem mais compassivo.
"Quando outros homens desrespeitavam
uma mulher, eu dizia a eles que parassem".
Ela diz que o fato de ter sido privada de
uma vida de intimidade sexual foi um sacrifício
necessário. Ela acrescenta que não
sente falta de filhos, porque sempre esteve
rodeada de sobrinhas e sobrinhos. "Quando
a minha convicção chegou a 100%,
tive forças para jamais retroceder".
Ser o homem da casa também a tornou
responsável por vingar a morte do pai,
conta ela, citando o edital de Kanun que preconiza
que o sangue derramado deve ser respondido
com sangue derramado. Quando o assassino do
seu pai foi libertado da prisão cinco
anos atrás, com 80 anos de idade, ela
ordenou ao seu sobrinho de 15 anos que o matasse
a tiros. A seguir, a família do homem
vingou-se, matando o sobrinho dela.
"Sempre sonhei em vingar a morte do
meu pai. Os meus irmãos tentaram, mas
não conseguiram. É claro, lamentei
o fato de o meu sobrinho ter sido assassinado.
Mas se você me mata, eu tenho que matá-lo".
Na Albânia, um país majoritariamente
muçulmano, o Kanun é seguido
tanto por muçulmanos quanto por cristãos,
embora os turcos otomanos e os sucessivos
governos tenham tentado limitar a sua influência.
Os pesquisadores da história albanesa
dizem que o apego a costumes medievais há
muito descartados em outros locais foi um
subproduto do isolamento do país. Mas
eles frisam que hoje em dia o papel tradicional
da mulher albanesa está mudando.
"Atualmente a mulher albanesa é
uma espécie de ministra da Economia,
ministra do Afeto e ministra do Interior que
controla quem faz o que", diz Ilir Yzeiri,
um crítico que escreve sobre o folclore
albanês. "Hoje em dia as mulheres
albanesas participam de tudo".
Algumas virgens juramentadas criticam essa
liberação feminina. Diana Rapiki,
54, guarda de segurança na cidade litorânea
de Durres, no oeste da Albânia, que
fez voto de virgindade para tomar conta das
nove irmãs, diz que tem saudade da
era Hoxha. Durante a era comunista, ela foi
oficial graduada do exército, treinando
soldados mulheres para combate.
"Agora as mulheres não sabem
mais o seu lugar", lamenta ela.
"Hoje em dia as mulheres vão
às discotecas semi-nuas e não
conhecem limites", afirma Rakipi, que
cortou os cabelos bem curtos e usa uma boina
militar. "Durante a minha vida toda fui
tratada como homem, sempre com respeito. Não
sei limpar uma casa, passar roupa e nem cozinhar.
Isso é trabalho de mulher".
Mas até mesmo nas remotas montanhas
de Kruje, cerca de 50 quilômetros ao
norte de Tirana, onde as estradas de terra
serpenteiam entre olivais, os moradores locais
dizem que a influência do Kanun sobre
os papéis dos sexos está desaparecendo.
Eles afirmam que a erosão da família
tradicional, na qual todos vivem sob o mesmo
teto, alterou a posição das
mulheres na sociedade.
"Atualmente as mulheres e os homens
são quase iguais", diz Caca Fiqiri,
cuja tia, Qamile Stema, 88, é a última
virgem juramentada da vila. "Nós
respeitamos bastante as virgens juramentadas
e as consideramos homens devido ao grande
sacrifício que fizeram. Mas não
existe mais nenhum estigma devido ao fato
de não haver um homem na casa".
Mas não há dúvida quanto
a quem usa as calças na casa da família,
de pedra e com um só aposento, em Barganesh,
a vila ancestral de Fiqiri. Lá, recentemente,
o "tio" Qamile foi rodeado pelo
seu clã, usando um qeleshe, o chapéu
branco tradicional dos homens albaneses. A
sua única concessão à
feminilidade eram sandálias de dedo
cor-de-rosa.Apontando para uma antiga foto
preto e branco pendurada sobre à entrada
da casa -mostrando um belo rapaz-, Stema diz
que fez o voto de virgindade aos 20 anos,
depois que o pai morreu, e que era a mais
velha de nove irmãs.
Após tornar-se homem, Stema diz que
pôde sair de casa e rachar lenha com
os outros homens. Ela portava uma arma. Nos
casamentos, sentava-se com os homens. Ela
lembra-se de que quando falava com as mulheres,
estas recuavam envergonhadas. Stema diz que
o voto de virgindade foi uma necessidade e
um sacrifício.
"A verdade é que às vezes
sinto-me solitária. Todas as minhas
irmãs morreram, e eu vivo sozinha.
Mas eu nunca quis me casar. Certas pessoas
em minha família tentaram fazer com
que eu trocasse de roupa e usasse vestidos,
mas quando viram que eu havia me tornado homem,
me deixaram em paz". Stema diz que morrerá
virgem. Ela brinca, dizendo que, caso tivesse
se casado, teria sido com uma mulher albanesa
tradicional. "Creio que pode-se dizer
que eu sou meio mulher, meio homem, mas é
claro que nunca fiz tudo que um homem faz",
diz ela. "Gostei da minha vida como homem.
Fonte: International Herald Tribune