argumentam que tal vacina
seria a melhor arma para o controle da pandemia
de Aids.
Várias outras vacinas contra o HIV
estão em diversos estágios de
teste em vários países. Mas
muita confiança foi depositada no teste
do governo norte-americano porque a potencial
vacina fazia parte de uma nova classe que
procura estimular o sistema imunológico
de maneira diferente. O médico Anthony
S. Fauci, diretor do Instituto Nacional de
Alergia e Doenças Infecciosas, a autoridade
que cancelou o teste que seria feito pelo
governo, afirmou que estava ficando cada vez
mais claro que seriam necessárias mais
pesquisas básicas e testes em animais
antes que a vacina pudesse ser comercializada.
Os cientistas dizem que a criação
de uma vacina contra o HIV é um dos
empreendimentos científicos mais difíceis
da história devido à natureza
misteriosa do vírus. A vacina do governo,
conhecida como PAVE - acrônimo em inglês
de Parceria para Avaliação da
Vacina da Aids - é similar a uma vacina
que foi bastante divulgada até ter
fracassado no ano passado. A vacina que fracassou
foi desenvolvida pela Merck, e a agência
de Fauci ajudou a financiar os testes realizados
pela empresa.
Fauci afirma que chegou à sua decisão
de cancelar o teste após reunir-se
com cientistas que tentavam entender por que
a vacina da Merck tinha falhado. Ele diz ter
concluído que os cientistas precisam
superar uma etapa de cada vez, porque ainda
não conhecem fatos fundamentais, como,
por exemplo, quais reações imunológicas
são mais importantes para prevenir
a infecção. Fauci afirma que
o objetivo do novo teste seria determinar
se a vacina poderia reduzir significativamente
a quantidade de HIV no sangue dos indivíduos
infectados. Segundo ele, antes que se realizem
testes em maior escala, um teste de menor
dimensão é necessário
para que se descubra se a vacina seria capaz
diminuir a quantidade do vírus no organismo.
"Mostrem-me que a vacina reduz a quantidade
de HIV no sangue", diz Fauci. "Então
poderemos passar para a fase de um teste mais
amplo, que possibilitará a identificação
do vínculo entre a vacina e uma resposta
imunológica específica. Um teste
de grande dimensão não se justifica
antes que tal redução viral
seja comprovada".
O médico Alan Bernstein, diretor-executivo
da Global HIV Vaccine Enterprise, diz que
a sua organização apoiou a decisão
de Fauci e que existe a "necessidade
urgente de uma diversidade de abordagens para
o desenvolvimento de uma vacina contra o HIV".
"Por exemplo, recentes avanços
laboratoriais, que permitem aos cientistas
examinar centenas de genes simultaneamente,
oferecem uma promessa imensa no sentido de
nos ajudar a entender como podem ser criadas
vacinas potenciais contra o HIV que sejam
capazes de proporcionar uma proteção
imunológica duradoura", afirma
Bernstein.
O teste que foi cancelado na quinta-feira
deveria ter começado com a inscrição
de 8.500 voluntários em outubro do
ano passado para receberem a vacina PAVE,
desenvolvida pela agência de doenças
infecciosas. A PAVE é um consórcio
de agências federais e organizações
financiadas pelo governo envolvidas no desenvolvimento
e avaliação de vacinas experimentais
contra o HIV. Ela procura criar uma vacina
anti-HIV efetiva, algo que dificilmente uma
companhia ou instituição farmacêutica
fará por conta própria.
O teste da PAVE foi adiado depois que um
teste da vacina da Merck fracassou quanto
aos seus dois objetivos principais: prevenir
a infecção e reduzir a quantidade
de HIV no sangue das pessoas infectadas. Além
disso, as pesquisas com os 3.000 participantes
nos nove países nos quais a vacina
da Merck foi testada sugerem que ela pode
ter aumentado o risco de que as pessoas sejam
infectadas.
Depois que um comitê de monitoramento
de segurança detectou os problemas
com a vacina da Merck em setembro do ano passado,
a companhia interrompeu rapidamente o seu
estudo. Os cientistas não descobriram
nenhuma explicação óbvia
para o fracasso da vacina da Merck, que era
considerada a candidata mais promissora. A
vacina da Merck foi a primeira de uma nova
classe de vacinas contra o HIV a chegar a
um estágio avançado de testes
com seres humanos. A vacina era feita com
uma versão enfraquecida de um vírus
do resfriado comum, o adenovírus tipo
cinco, que servia como transportador de três
genes do vírus da Aids produzidos sinteticamente
- gag, pol e nef. Três doses da vacina
foram injetadas nos voluntários em
um período de seis meses.
Análises científicas revelaram
que o maior risco de infecção
por HIV entre os voluntários estava
no grupo formado por homens circuncidados
e que já apresentavam anticorpos contra
o adenovírus do tipo cinco. Após
o fracasso do teste da Merck, o governo reduziu
o número de potenciais voluntários
para 2.400. O grupo incluiria homossexuais
circuncidados que não apresentam anticorpos
contra o adenovírus do tipo cinco.
A pesquisa de dimensões reduzidas custaria
cerca de US$ 63 milhões, contra os
US$ 140 milhões previstos para o projeto
anterior.
Em uma entrevista coletiva à imprensa
em 1984, autoridades federais de alto escalão
afirmaram estar otimistas quanto à
possibilidade de que uma vacina contra o HIV
comercializável estivesse disponível
em três anos. Desde então, os
pesquisadores da Aids mostram-se divididos
quanto à rapidez com que devem ser
testadas as vacinas experimentais. Muitos
recomendam cautela, por temerem que fracassos
possam acabar com a confiança das pessoas
não infectadas que pertencem a grupos
de risco, já que esses indivíduos
serão necessários como voluntários
em futuros testes.
Mas outros grupos fazem pressão intensa
para que se realizem testes tão logo
as pesquisas mostrem-se promissoras, já
que existe a necessidade urgente de uma vacina.
Em um outro estudo, pesquisadores da Universidade
Duke revelaram na quinta-feira que o HIV degrada
o sistema imunológico mais cedo do
que os cientistas pensavam. Segundo um artigo
publicado no periódico "The Journal
of Virology" por uma equipe chefiada
pelo médico Barton Haynes, a janela
de oportunidade para conter o HIV pode se
restringir aos dias iniciais, e não
às primeiras semanas, após o
vírus penetrar no organismo. Essa conclusão
baseou-se em um estudo com 30 indivíduos
recém-infectados pelo HIV, e o Instituto
Nacional de Saúde dos Estados Unidos
financiou a pesquisa.
Fonte: The New York Times