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O CADÁVER: VERDADES, LENDAS, RESPEITO E VENERAÇÃO

APRESENTAÇÃO: Este trabalho é fruto de pesquisa realizado quando diretor do Instituto Médico Legal da Paraíba. As fontes de informação prendem-se a experiência de mais de quarenta anos convivendo com necropsias, de bate papo com falastrões e de histórias contadas por pessoas que gostam de mau assombro. Para não cansar o internauta resolvi dividi-lo em quatro capítulos intitulados de “AS PERIPÉCIAS DA MORTE I – II – III- IV” que estarão à disposição da COREMASNET. Espero não deixar ninguém assustado.

AS
PERIPÉCIAS DA MORTE I

1. CONCEITO DE VIDA E DE MORTE: A morte é a única certeza que temos na vida. É drástica, imparcial e não poupa a ninguém quer seja rico, pobre, humilde ou orgulhoso. O inusitado é que ninguém se acostuma com ELA. Tanto é que, a sabedoria popular de modo inteligente, não

economizou palavras quando sentenciou: “Se morrer é descansar, prefiro viver cansada”.
Existem algumas definições sobre morte de ordens literárias, cientificas, filosófica e até teológicas. A melhor das definições é esta por não dever autoria a ninguém: “A morte é o conjunto de fenômenos e fatores que se opõe à vida".
O Direito Civil é taxativo quando afirma que o cadáver é coisa. Eu vou muito mais além. Em minhas aulas afirmo que é uma coisa indesejável. Não cometo nenhum sacrilégio ou profanação com esta afirmativa, uma vez que, ninguém de sã consciência deseja guardar um morto em casa. Guardamos a caneta de vovô, a pulseira de titia, o anel da madrinha e a aliança de papai, porém, não queremos guardar os cadáveres dos personagens citados, por mais gratidão que devamos a eles.
Quantas vezes estamos em um velório e na hora da partida do féretro para sua última morada, ouvimos o choramingar desesperado de um familiar gritando: ”Não levem, deixem comigo”. Se as personalidades presentes que velam o morto combinarem entre si e responderem: “Está bem, fique com ele”. O próprio chorão responderá: “Vocês são quem decidem: levem e entreguem a Deus".
Por ser coisa, é lógico que tem um destino; por escolha pessoal quando ainda estava em vida ou por tradição religiosa e familiar.
• Inumação: Os sete palmos de fundura na terra que tem direito por herança;
• Cremação: Redução rápida a cinzas em fornos crematórios;
• Imersão: Tradição saudável dos velhos lobos do mar;
• Destruição por animais: Costume da velha Índia e de algumas colônias africanas;
• Veneração: Quando colocados em criptas de vidro por exigências da comunidade;
• Estudos: Doados pela família às universidades, para o aprendizado anatômico.
Desde que o mundo é mundo, que os apavorados têm medo de cemitérios, de visagens, de almas penadas, de defuntos e de coisas tais. Outros mais afoitos contam histórias mirabolantes de almas perdidas, assombrações e, descobertas por sonhos, de botijas salvadoras recheadas em moedas de ouro.
Conheço um conterrâneo que ao passar diante de um cemitério, na hora em que os reflexos do luar sobre os arvoredos ali existentes, produziam imagens fantasmagóricas, ouviu vindo lá de dentro, gemidos lamentosos e desesperadores. Parou, ofereceu-se para mandar celebrar uma missa e até pagar as dívidas do finado. Ficou estupefato, estarrecido e atônito quando descobriu que não era uma alma penada como imaginava ser, e sim, alguém que ali estava escondido satisfazendo as necessidades fisiológicas. Em vez das exéquias religiosas ou pagamento de dívidas, um simples pedaço de papel higiênico resolveu o problema da assombração agonizante.
Quanto às verdades existem muitas, como da realidade da putrefação, mumificações, saponificação, maceração, mudanças na coloração da pele, de odor fétido, dos sete palmos profundos na terra que tem direito e da transformação rápida em esqueleto.
Para chegar a esqueleto o cadáver passa pela fase de decomposição que é a destruição do corpo por bactérias, fungos, insetos e até por animais predadores. Todo cemitério que se presa deverá ter os agentes biológicos acima citados, e mais: ratos, pebas, cachorros, urubus e carcarás. A hiena só não é bem vinda, por ser grande demais.
Sobre as lendas, os romances estão recheados de dados heróicos, vitoriosos, sensacionais e estarrecedores. A história conta que o grande guerreiro espanhol El Cid ganhou uma batalha considerada perdida depois de morto. Os comandados deste herói amarraram o seu cadáver em cima de um cavalo, puseram a espada em riste direcionada para o inimigo e a luta foi vencida. O adversário espantado com aquela figura exótica e resoluta a cavalgar, fugiu em debandada.
2. VERDADES E LENDAS: De minha lavra comentarei algumas observações inusitadas ou fatos curiosos de extraordinária repercussão. Tenho como bases, as experiências adquiridas ao longo de trinta anos executando ou presenciando necrópsias e, na célebre expressão popular do “OUVI DIZER”. Usarei inclusive, as mesmas palavras ou chavões populares dos fantásticos e animados narradores. Alguns dos exemplos citados são reais e de comprovados valor científico. Outros são frutos de fantasias imaginárias ou façanhas criativas. Verdades ou mentiras, proezas ou vexames, serviram no passado para amedrontar crianças. Digo no passado, porque com o advento da televisão, pirralho medroso é logo apelidado pelos colegas de boiola. Fica encabulado, perde o medo, enfrenta as assombrações e passa a ser corajoso. Hoje em dia, nem a figura maldosa e horripilante do capeta faz medo à criançada. Sem maiores delongas, permitam-me que vá direto ao extravagante assunto. CONTINUA...

 
ALIRIO BATISTA DE SOUZA
• Médico – CRM. 579
• Advogado – OAB. 2.325.
• Professor de Medicina Legal no Centro Universitário de João Pessoa - UNIPÊ.                   Credito
 
MURAL DE RECADOS
 
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